quarta-feira, 20 de julho de 2011

Elle





Meus olhos cruzaram os seus em uma rápida ráfrega de segundos. Mas suficientes... Devia ter uns 15 ou 16 anos. E estava intessada em música. Fato que me chamou atenção, pois moças da sua idade estavam interessadas em arrumar marido. Tinha um ar altivo dos aristocratas. Vinha acompanhada de uma dama, que parecia uma preceptora, ou alguma coisa do tipo. Uma senhora de uns 50 ou 60 anos. Tinham uma relação de proximidade e conversavam em francês. Talvez fosse uma tia, dessas solteironas que se dedicam a criação dos sobrinos e os tratam com tanta devoção como se fossem verdadeiramente filhos seus.
Tudo isso observava enquanto falava como o seu tio. Um amigo pessoal e um grande incentivador do meu trabalho. De origem francesa, a tradicional familia, que o sobrenome não importa, era conhecida por toda europa por possuirem uma grande rede de bancos. Banqueiros mecenas apaixonados por arte, em especial pela música.
A sobrina vinha da França para ter aulas de piano comigo. Destacava-se por sua incrível inteligência musical e uma habilidade especial com o piano. O que deixava a todos muito orgulhosos em sua família e a incentivam a tocar. Coisa rara para época. O tio falava dela sempre com muito carinho, o que dava para perceber que era muito paparicada pela família. Pois nem de suas filhas ele falava com tamanho entusiasmo.
Depois de convencer o irmão de que a sobrinha tinha um talento raro para a música e um brilhante futuro como pianista, ele permitiu a sua vinda à Austria, que ficaria aos seus cuidados e da preceptora. A essas alturas a minha fama de sedutor já havia percorrido os quatro cantos da Europa e era quase igual a outra.
Fiquei ansioso por conhecê-la, não minto. E ela era realmente diferente. Como eu ia dizendo, tinha a altivez típica dos aristocratas e andava como balharina, porém com uma aura de simplicidade que também lhe era nata. Não usava decotes, ou joias exuberantes. Mas era impossível não olhar para ela. Não me concentrava na conversa do amigo, a observava discretamente.
Ele nos apresentou, mostrava-me indiferente, claro! Ela, tímida. Tímida? Hoje, eu sei que não. Era do tipo inteligente de mais para ser tímida. Foi uma das mulheres mais inteligentes que conheci.
Nossos olhos se cruzaram mais uma vez, dessa vez pude vê-los de perto. Eram negros e buliçosos, curiosos. Sussurrou seu nome. Ensaianos uma breve apresentação como o meu francês enferrujado, e depois de devidamente apresentados, fomos ao piano.
Ela tocou lindamente e eu sei que foi para mim... E de vera fora...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Entalo

Sem imagens
Nem som
Até o silêncio é expressivo
Sem sonhos
Nem cor
O não quero
O não respiro
Uma pausa...
Nada de caminhos
Nada de mim chorando pelos cantos
Eu, também não
Ele também não fica
Não grito
Não escuto
Pulo
Voou
Montanhas
Velocidade
Esquecimento
Vento
Palavras sem pronunci[ação
Cansaço
Falta de sono
Falta de nada, não!
Chão
Estrelas
Horizontes
Uma cantilena árabe que toca sutil
Ao fundo
Ao meu coração
Um poeta,
Uma tribo nômade, berbere
Uma incrível sensibilidade que não dá conta do mundo
Canto?
Palavras em desconexão
sôfregas pela entonação de uma voz
Que fala da alma
Do Espírito
Do deserto, impossível construir-te
A qualquer custo
Não resta nada, não!
Sem imagem
Sem porto
Nem barco a vela ancorando coração
Verdade alguma
Entalo
O não fim...
A vida de cabeça para baixo
E a janela que não se encontrou fechada
Quis ver
Baixei a guarda
Perdi todos os meus sonhos
Voaram os meus poemas
Foi-se a poesia das mãos
E a vontade de dormir
Agora, nada não!