sexta-feira, 9 de abril de 2010

Ela e lembranças
















Estava caminhando pela calçada em direção a qualquer lugar. Levava os seus livros contra o peito, os olhos reflexivos, e perambulantes... Aonde estava mesmo? Em algum lugar do tempo... Parecia absorta em ideias, em um emaranhado de sensações cruas que lhe dilaceravam o peito. Questionava-o, mas não há uma só resposta...
Sem qualquer vaidade, o cabelo num rabo de cavalo, sem mesmo um batom sequer que lhe pintasse os lábios. Mas era ela mesmo, sem sombra de dúvidas, caminhando em suas lembranças. Sentindo tudo. E Era ele que caminhava na direção contrária, que a havia visto e fingido não ver... Os dois corações aceleravam-se mutuamente.
A mesma disputada travada de olhares. É impressionante como olhos não mudam com o tempo. Não envelhecem nunca, mantém a vivacidade da alma. O nossos olhos se provocam, em um eterno jogo de sedução... O mesmo de quando eu o vi pela primeira vez e quis vencer os seus olhos, como ele quis, também um dia, vencer os meus.
Essa queda-de-braço que já dura não sei quanto tempo, teve o seu ápice no ano de 1800 e alguma coisa, em uma cidade qualquer. Fui até ele para aprender a tocar piano. Queria estudar com melhor e o meu pai, que sempre atendia aos meus caprichos, me deixou ir, mesmo a contra gosto, devido à sua fama de sedutor. Lila me contou que ele andou se engraçando com uma de minhas primas...
Depois da morte de minha mãe, meu pai passou a ficar mais tempo em casa. Meio pelos cantos, talvez a sua consciência pesasse um pouco. Afinal, passou toda uma vida lhe cobrando um filho homem, e isso acabou matando a pobre.
Minha mãe era uma talentosa bailarina alemã, a primeira bailarina de uma importante companhia de ballet austríaco. Havia fugido de casa para dedica-se a dança, meu avó nunca há perdoou por isso. Mesmo depois de casada com o meu pai, um importante banqueiro da época, ele se recusara a falar com ela.
Era sempre muito calada, a mulher mais elegante que eu conheci. Não se aproximava muito de mim, não me deixava conquistá-la. Ensinou-me alemão, a tocar piano e a dançar lindamente com ela. Tudo a uma certa distância. Quando dançava, abandonava-se a dança, parecia um cisne em uma lagoa de água azulzinha, transparente e calma. Não sei se posso dizer se a amava, mas queria ser altiva com ela.
Havia um atelier em nossa casa que respirava música e dança. Era um imenso salão com um piano no canto ao lado da janela que dava para o jardim. Muitas obras de artes, quadros e esculturas de bailarinhas, decoravam-no em meio a muito branco e as cortinas de seda peroladas. Lembro-me de uma caixinha-de-música com uma linda bailarinha que fica numa posição de destaque, que fora um presente de casamento de meu pai. Eram os olhos de dela.
Minha mãe muito compenetrada, ensinado-me le pas coupé e eu olhando para a Lila sorrindo com a minha cara de travessa, fazendo caras e bocas. Não desdenhava, só que ela levava as coisas sério demais e queria brincar com as minhas bonecas.
Não queria ser bailarina. Queria ser musicista. A minha paixão era o piano... Era a única coisa que era capaz de prender a minha atenção aos cinco anos de idade e um jardim inteiro a minha disposição para ser explorado.
Era mágico o som que emanava dele. Conseguia atingir algo em meu coração que não sabia ao certo como definir aquela sensação que tinha alguma coisa de triste e de alegre ao mesmo tempo. Era como se podesse escolher com que sonhar...


-Marie, sors de là, coquine! Gritava Lila quando me via subindo na minha árvore preferida do jardim. "Vai se atrasar para as aulas de alemão" Dizia ela enquanto ajeitava o laço do meu cabelo. Nesse dia, eu usa um vestido cor-de-rosa combinado com o laço de fita também rosa, que não segurava no meu cabelo, fininho e com cachinhos nas pontas. Mas parecia um menino, tinha as unhas sujas de terra e os joelhos e pernas cheios de hematomas. "Não gosto de alemão. Papai disse que alemão só serve para falar com os seus cavalos... " Obtemperava zangada.
Lila me olhava sorrindo complacente. "Só quero falar francês como o papai". Essa frase fechava sempre o meu discurso indignado, enquanto caminhava rumo as benditas aulas de alemão...

Minha mãe me esperava na sala com uma régua na mão. Falava somente em alemão comigo. Foi assim que aprendi a falar alemão fluente e a gostar mais do francês.

Sempre que o meu pai chegava de alguma de suas viagens, minha mãe o recebia com festa. Eu o recepcionava tocando o piano. Ele me não escondia o seu orgulho de mim, estava cada vez mais parecida com ele. Colocava-me no colo, enchia-me de mimos, das bonecas caras que tivessem a cor dos meus olhos. Ria-se quando Lila contava-lhe minhas travessuras. Enquanto a minha mãe, ele lhe era indiferente, mesmo depois de haver preparado-lhe tudo com tanto carinho.

Costumávamos ir a nossa casa de campo no verão para cavalgar. Papai adorava cavalos e me ensinou a cavalgar desse de pequena para desespero de Lila. Ele era o melhor pai do mundo, me entendia como ninguém. E fazia todas as minhas vontades. Eu tinha os gestos delicados de minha mãe e o gênio do meu pai. Uma combinação explosiva, não? Se pudesse me conhecer naquele tempo, você ia entender exatamente o que eu estou dizendo. A minha mãe sentava-se perto do lago e ficava horas observando-nos enquanto apostávamos corridas a cavalo. Não interagia conosco, não esboçava qualquer reação. Parecia uma fria estatua de mármore. Eu tinha um cavalo lindo, que foi presente de aniversário de 12 anos. Esse verão, de 1864, foi o mais feliz da minha vida. Papai viajava menos. Estavamos mais tempos juntos. Porém, foi por esse época que o silêncio e a tristeza de minha mãe foram se tornando mais crônicos. Dois anos depois ela veio a falecer. Ninguém me explicou ao certo de que, só que ela teve uma parada cardíaca, mas ninguém entrava em detalhes, falavam baixinho pelos cantos e quando me aproximava, mudavam de assunto.

Na escola, todas as meninas só falavam em casamento, em arrumar o melhor partido, que tivesse uma boa família. Imaginavam festas luxuosas, joias e tudo isso que você já deve está imaginado. Éramos criadas para sermos donas-de- casa, mães, esposas, e não um ser humano feminino, com vontade própria, livres para serem como realmente eram. Sobretudo, imaginava a minha mãe, linda, coberta de joias caríssimas e casacos de peles. Estava sempre triste, com um sorriso educado nos lábios, alimentando a vaidade do meu pai.
Não! Definitivamente não! Não era isso que eu queria para mim.

Nessa época eu devia ter uns quatorze anos. Adorava ler, continuava muito curiosa. Tinha uma necessidade de aprender muito grande. Meu pai me comprava livros, qualquer um que eu quisesse, contanto que a minha mãe não soubesse. Ele se chamava Lion. Agora lembrei! Era alto, esbelto, tinha barba e bigode escuros, como seus cabelos. Era branco, como as maçãs do rosto sempre coradas. Elegante, eloguente e culto. Todos esses atributos o tornava um grande sedutor. Mas do nome de minha mãe eu ainda não lembrei.

Li muitos poetas ultrarromânticos da época. Adorava poesias de amor, mas não era capaz de compreender como se podia morrer de amor...


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