
Estava chovendo muito. Começou de repente, quando eu voltava para o trabalho a algumas quadras dali. Tentei abrigar-me sob a laje de uma loja que vendia coisas vindas do oriente. Na vitrine, havia um "bonequinha japonesa" que chamou minha atenção. Os olhos puxados, os lábios, cabelos... Pude lembrar dela carregando livros contra o peito, caminhando para mim, para que pudesse vê-la passar. Como se tivesse saindo de um poema qualquer de Neruda no fim da tarde. Por instantes pensei no que gostaria de dizer a ela, no que gostaria de ouvir depois de tanto tempo, e a pequena gueixinha me olhava atenta com olhos tímidos, de um silêncio contemplativo. Talvez já me esquecera, se é que me amou um dia. O que sentia diante dela, com aquele questionamento de fato, nostalgia? Não sei... Nunca conseguimos nomear aquilo que sentíamos. O que era o olhar para ela, vindo em minha direção, carregando seus livros, sendo qualquer poema de amor que Neruda foi capaz de escrever?
Assim, como se me entendesse, a kokeshi dialogou com o meu coração:
-Perdoa-me quando disse que o amava...
Meio assustado continuei olhando-a.
- Eu ainda...
- Eu nunca...
- Eu sempre...
E as suas frases nunca sendo finalizadas, como as minhas "Eu não consigo entender o porquê de não..."