quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Solos ao piano

















Estava sem sono e resolvi tocar, porque a minha saudade tinha um nome. Muito de meus pensamentos eram imprecisos, desencontrados. A sobriedade dos móveis luxuosos da sala não alcançavam a minha alma, não interagiam comigo, sendo algo a parte de um mundo denso e coeso. Mas eu não era nada disso. Eu não estava ali de fato. Atendia ao apelo desesperador de meu ser em busca de um abrigo. Pensei no piano. Não sabia escrever poesias, nem falar de amor, como minh'alma precisava ouvir. Talvez a música pudesse me levar dali. Em meio a um transe agudo, minhas mãos não sofreavam as teclas, já não me pertenciam, com também as teclas, ao piano.
E toquei docemente, como se o visse sorrir, como se também lhe sorrisse. Havia me esquecido do quanto era lindo, e que olhá-lo era algo indelével... Meu eu se regozijava de uma alegre sensação de voo, meu coração batia em liberdade.
Tocava, porque não podia gritar o seu nome, como se o achasse em meio aquela sonata, embalada por uma chuva em pleno outono, que escorria pela vidraça, abafando o som. Paris fica ainda mais linda no outono: jamais été la grammaire française du vrai problèma pour vous, ma vie... Também sentia saudades do seus braços.
O que era vida então, antes de vê-lo? Tudo estava diferente, o dia ganhara cores vibrantes, as nuvens formas, o mar me dizia algo dele. Mas a música... A música era uma passagem secreta para minha alma confessa. O pianista nunca compreendia o porquê de sua música não alcançar o meu coração, se perdia pelos inúmeros labirintos do meu corpo, até a mais sublime, e o intenso se dissipava na primeira batida que me levava para longe. Agora tudo faz sentido, não obstante, ainda não fazia naquele momento, simplesmente tocava.
Meus pensamentos eram guiados por aquela forma de olhar, tinha os olhos serenos de um brilho peculiar e cúmplice. Sabia o que sentia, o que pensava sem precisar dizer palavra alguma. Era estranho... Como se já o conhecesse e já o amasse de antes, sempre. Mas de onde? De sonhos distantes... estranho...
Tocava, porque não podia dizer que o amava etecétera, eteceteramente...
Paro debalde...
Aplausos!!!
_ Êtes-vous a jouer du piano et mieux mieux, ma belle...
Aquele homem em pé tão frio como a coluna de mármore na qual se encontrava encostado era uma forma cruel de me trazer para a realidade. Passei a não querer mais desposá-lo.
_ Oui, monsier...
Fecho o piano.

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