segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Depois

Minh' alma está cansada
Há espinhos no caminho
Não sei aonde esconder
A rosa que me deu o teu sorriso

Entre escombros meus, percorro
Meus pés descalços estão sangrando
Já não sei o que restou
Do seu abraço em meu destino

E se me perco da luz dos olhos teus
A imensidão do meu ser
Será somente escuro
A parte onde bate o coração

Parte divina de minh'alma
luz de cada entardecer
E quando com a saudade não poder mais
Não me deixes adormecer

Uma homenagem ao amor...

Cântico a Lívia

Alma gémea de minh'alma,
Flor de luz da minha vida,
Sublime estrela caída
Das belezas da amplidão!...

Quando eu errava no mundo,
Triste e só no meu caminho,
Chegaste devagarinho,
E encheste-me o coração.

Vinhas na bênção dos deuses,
Na Divina claridade,
Tecer-me a felicidade
Em sorrisos de esplendor!...

És meu tesouro infinito,
Juro-te eterna aliança,
Porque sou tua esperança,
Como és todo o meu amor!

Alma gémea de minh'alma,
Se eu te perder, algum dia,
Serei a escura agonia
Da saudade nos seus véus...

Se um dia me abandonares,
Luz terna dos meus amores,
Hei de esperar-te, entre as flores
Da claridade dos céus...

(Francisco Xavier)

domingo, 16 de agosto de 2009

Espera


Espera, que o tempo fechou...
Guarda-chuvas a postos
Espera,
Que os teus pés não te acompanham
Que uma vida só não basta
Espera...
Quem espera sempre alcança
Conta nos dedos o passar
das horas
O relógio fora esgotado
E a um tempo muito nosso
conduz a uma sábia espera
os nossos pés descalços
Descansa, porque o mundo espera
E os teus pés precisam caber dentro de ti
Em teus sonhos
E no todo sempre...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Sei...















Já não sou quem era
Estou tão alheio a mim
As minhas próprias mãos
Como se não fosse nem uma coisa, nem outra
Nem uma parte qualquer
Do que não ficou
Perdido dentro livro pintado por Dalí
De um romance do qual não me lembro
muito bem o nome agora
Que existiu
Que existi
Que existo
Não estou no trecho que não sublinhei de verde florescente
Nem nas páginas marcadas pelo marcador invisível a olho nu
Restou uma leve marca no canto da página
Uma folha dobrada
Indicando que ali algo foi relido
Que algo fechou os olhos do coração que deixou de bater, pelo que mesmo?
E a vida transcende...
Desabrocha
Vira rocha
Borboleta
Pés, estrada e caminho
Destino
Espelho
Eu dentro de mim
Eu, um dia de cada vez
E meus pés, paciência...

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Édipo



















Onde estão os meus pés agora?
Tão cheios de calos
Tão cheios de uma tímida vida
Que aos poucos ganha forma de caminho
Sustentando o meu corpo
De areia e sal
Que descansa ao sol
Agora leve
Brisa
Jasmim
O mar perfeito de minhas andanças
Na infinidade das coisas minhas
Os meus pés não tocam o chão
Não descobrem mais estrelas
Não passam por mim quando durmo
Já não te buscam com a mesma ansiedade
Os meus pés descansam ao léu
Sob uma lua não cheia
E um céu profundamente meu
Feito por mim
Quando os vi pela primeira vez
E senti que podia ir
Senti que eles me levariam aonde eu quisesse
Sem aquela pressa de sempre
Sem precisar chegar de uma vez só...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Ensurdecimento













Não me fale mais de ti
Não quero ouvir...
Não quero saber mais de suas lindas mãos
De sua inconstância
De seus beijos sufocantes
De sua música...
Quando não se escuta a chuva
E o friozinho de madrugada
O sorriso acordando
E a melodia se torna uma simples melodia vazia
Sequência de sons de um coração
Que insiste em permanecer surdo
Que insiste que eu permaneça em teu silêncio
Quando já não amo mais o teu corpo
E a tua alma me busca
Em inspiração
Em detalhes nossos
Sempre fui o teu contraditório inatingível
Porque nunca saí de perto de tuas vistas
Estive sempre tão próxima
E não pôde me ver de carne e osso
Eu fui cartas
Odes
A perfeição melódica de sua música
Porque foste capaz de me amar mais do que tuas escalas e arpejos
Sem perceber
Intercalava-me com elas
Driblando a tua surdez
E o meu coração, que te esperava paciente
Não, não me fale mais de nós
Já não posso mais...
Liberte-me de nós
Liberte-me desses sons que não me deixaste falar...

sábado, 1 de agosto de 2009

Náufragos


Estava no meu sonho ontem. Porque eu sentia tanta saudade, procurei até encontrá-lo. E o encontrei distante, com um coração que não batia. Acordei angustiada e pedi a Deus para não pensar mais... Voltei a dormir, e lá estava você de novo. Como se quisesse me dizer alguma coisa que não podia ser dita. Alguém falava do casamento, talvez a sua possível noiva. E os seus olhos ficaram distantes, podia sentir todas as suas dúvidas e os seus questionamentos. A sua imensa sensação de vazio, um vazio que também é meu. Aproveitando uma distração dela, passou deslizando do seu sofá para o outro onde estava sentada de braços cruzados. Disfarçadamente, segurou a ponta dos meus dedos e encostou o seu rosto ao meu. Foi quando não conseguiu conter-se, e já não se importava se nos olhavam. Era a sua forma de dizer "eu estou aqui, também sinto saudade" quebrando as regras. Saí envergonhada, por não saber respondê-la quando me perguntou o que era aquilo. Você me seguia até a porta e mais uma vez tentava me dizer alguma coisa e não conseguia. Somente me perguntou "quantas vezes ficamos juntos?"Mas uma coisa era certa, ao início, não era naturalmente você, porém depois era o meu amor de sempre, com o coração batendo espaçado. A nossa velha cumplicidade, a troca de olhares, toda a sua proteção, da qual sinto muita falta. Está muito difícil, ter que caminhar somente com os meus pés... Mas tenho que seguir viagem. Um mar de ideias confusas me assola em meio ao silêncio de passos vagos, sempre em frente, um pé trás outro. E assim me descubro em mim mesma, algo pleno, cheio de labirintos subterrâneos a mar aberto, naufragando em caminhos que antes eram dispersos, indefinidos. Algumas vezes, quando a saudade é maior que o mundo, é que corro para os seus braços, quebrando as regras... Quando tudo isso acabar e os meus pés, descansando juntos aos seus, todo o esforço terá valido a pena... Talvez só agora aquela sua pergunta faça sentido e possa resumir tudo com uma outra pergunta a ela "E quantas vezes estivemos separados?"