quarta-feira, 22 de julho de 2009

Toda uma vida














Como era ela, vovô? Os olhos do avô brilharam e um sorriso também iluminara o seu rosto. Falava sorrindo como sempre, com um sorriso no canto da boca, e com os olhos lânguidos voltados para dentro. O avô respondia pausadamente as perguntas do menino. Ela era encantadora, não sabia ao certo o que sentia quando a via... Era mágico poder olhar aqueles olhos e transceder para dentro deles. Sabe quando você consegue se ver projetado em alguém, e ser capaz de ficar horas e horas observando uma figura de uma delicadeza singular?! O mundo se resumia ali, meu mundo era ela.
E por que não ficaram juntos? Passei toda uma vida evitando essa pergunta. O velho sorria suave olhando para os lados. Mas era ela mesmo na loja de doces? Insistia o menino curioso. Talvez... Ela foi poetiza, musa lírica de Aristóteles, que cantou o amor intenso à flor da pele. Me esperou voltar da gerra, quando eu não voltei. E não aguentou de saudades. Sua dor descarnava meu peito.
Então, a vi ressurgir linda ao piano. E na escadaria do Teatro Garnier. Depois de tanto tempo, ela passava por mim como se estivesse ao alcance de minhas mãos. E eu não entendi muito bem o porquê de poder não ser minha.
Eu a quis tanto... E nunca pude esvaziar do peito esse querer. A minha vida toda ficou marcada com uma enorme sensação de falta algo.
Nesse momento, o velho já não se importava de estar falando tudo isso a um menino de apenas nove anos de idade. Ele queria muito falar, tirar de dentro do coração aquilo que mentira existir, e vendo-a ali passando com aqueles olhos, os meus olhos cúmplices, tão perto...
E pensou na pele branquinha, no sorriso sereno na boca carnuda, de lábios suntuosamente desenhados que percorreria com os dedos depois de saborear o beijo... Sentado no banco, recuperava as forças das pernas, enquanto a via entrando no carro e de novo partindo.

sábado, 18 de julho de 2009

Moinhos

















Sinto falta das asas
Liberdade é querê-las
E não desistir delas...

Subsistindo labirintos, meus olhos
Que me vão de encontro
Ao acaso de meus porquês insólitos
De meu coração insólito
De minha vida insólita
Que no chão é refletido um mar de estrelas
E eu sempre buscando sonhos
E eu sempre buscando uma forma de te levar comigo
Como se dentro de mim houvesse o infinito sem ti

Sinto o peso das asas
Mas caminho,
Há tantos calos nos meus pés
em meus destinos
Já não pergunto
Os teus silêncios me respondem como brisa
E em meus sonhos
De súbito, um leve beijo
E a vida, leve por alguns instantes

Às vezes é difícil ser quem somos
Sobreviver ao inferno de Dante
Tocando o chão
Como a sutileza de pés que caminham
Na direção qualquer de meus moinhos
Eu, Quixote
Eu algo que busca
Que devaneia um mundo perfeito
Para ancorar meu peito

Liberdade é estar assim
louco de amor
E com as asas que quis para voar...

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Estou
















Observo a chuva em silêncio
com uma vontade louca de me molhar
Mas gato escaldado...
Adoro o barulho
E o cheiro da chuva
Adoro lavar a alma
Adoro quando os meus olhos podem ver
além de mim
E tudo parecendo novo
Adoro a minha chuva em silêncio
Contemplativo
Apático
Ensurdecedor
Adoro a chuva que passa
O cheiro da terra que fica molhada
cheia de vida
Adoro a simplicidade desses versos
dizendo tudo
A chuva chovendo
As poças d'água
A minha vida chovendo
Estalando na telha
Descendo pela vidraça
Tão claramente
Que posso tocá-la
Sentindo toda a paz que buscava
Agora, estou...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Allende...












"Tira as tuas sandálias dos pés, pois a terra em que tu pisas é santa... Ex. 3:5"

E vou sentindo a areia fininha, enquanto os meus pés se firmam no chão. Ando como uma criança que dar os seus primeiros passos, meio cambaliantes, sem equilíbrio, sempre em frente. Vou em direção ao mar tranquilo e calmo que vejo distante, diferente das grandes ondas que se chocam com as infinitas pedras subterrâneas do meu peito. Dentro de mim há muitas perguntas confusas e medos desconcertantes ao léu, com ventos tempestuosos que desenquietam os meus olhos, mudando o curso do rio, que está destinado para uma outra margem "allende" que vai de encontro a um mar maior que eu.
Sinto um frio insuportável, como se eu fosse a personagem principal de um filme de Buñuel, mas gosto de estar descalça, gosto de sentir a liberdade dos meus pés por onde passo, pois cada grãozinho de areia é uma parte integrante de mim, que faz parte do meu caminho, formando o chão onde piso e dando com precisão a direção dos ventos e dos meus olhos, o horizonte.
Por enquanto, sou sensações que ocilam entre extremos exacerbados e dementes, entre seus olhos e o que não quero deles, entre o instante de agora e o relógio infinito, entre o que foi dito e as reticências dos caos. Por enquanto, ainda não sei quem sou, mas gosto do intenso, de ficar descalça, de me buscar em terras onde não estarei nunca, de me achar por acaso e me perder de novo. Numa eterna busca, para um eterno retorno. Porque sempre serão curiosos os meus olhos e a minha vida nada perfeita para escrever histórias. E me espera um mar calmo, dentro e fora de algo que virei a ser, "allende".


Quase

Parei por instantes meus...

Parei para sentir um pouco mais de saudade
Para relembrar
Para ter a certeza que não vou esquecer
Parei por instantes seus
Por seus olhos
Pelo que não foi vivido
Para mais uma vez sentir o seu abraço
Parei por instantes nossos
Para dizer que vou te amar até o último dia de minha vida
E que vou não sei para onde
Parei porque ainda tinha tanta coisa para falar
Mas, por hora, o silêncio é necessário
E já diria tudo, como sempre disse
Agora já vou ter que ir
Voltarei a caminhar
Pensar em ti sempre é muito bom
E não podia partir sem me despedir
Meu amor, minha vida

domingo, 5 de julho de 2009

Ainda não defino a direção dos ventos...

Ainda não defino bem a direção dos ventos, também ainda não baixou a poeira, paciência. Sua imagem rarefeita segue flertando comigo, mesmo que ao longe, em tons pastel e cinza, ainda é capaz de ferir-me, mas já não me importo mais, deixa doer... até que sare de vez, até que morra de vez para mim, e possa eu, submergir do transe e do seu mal amado amor.
Observo o que restou, e fico olhando longas horas, sem mexer qualquer coisa e um silêncio me invade. É esse silêncio que dialoga comigo, um silêncio repador, um fogo-amigo.
Arrumo as malas para seguir viagem. Não há muito que valha a pena levar. Estou deixando muita coisa para trás. Em uma caixinha gurdei as fotos, as lembraças , o sorriso e o jeito único de olhar-me. Será que olhando-me da mesma forma, me veria do mesmo jeito? Acho que não. Estou tão diferente, tenho muitas marcas pelo corpo, que já não fica em pé sozinho, talvez nem te olhasse nos olhos...
Em todos esses longos caminhos, nunca foi tão forte o acordar de um sonho, vendo tudo sendo desvastado e descolorido bruscamente, nem te perder doeu tanto, quando agora... Talvez porque nunca senti que estivesse longe de fato.
Enfim, parto. Paro pela última vez para olhar para trás. E ficarei assim não sei por quanto tempo. Havia algo de bom embaixo dos escombros, só não quis remexer. Preferi pensar que não, senão não teria coragem de partir. Coisa minha. O meu amor por ti foi tão destruidor quanto suas palavras que ainda ecoam na minha cabeça, simplesmente escuto-as para ter a certeza que já era hora de ir. Mesmo sem direção definida, um barco qualquer, um cais, nada. Irei de encontro ao meu destino, aos meus olhos, com meus próprios pés e minhas próprias mão, levando como bagagem, as inúmeras marcas no meu corpo e as suas palavras amargas para ir me desfazendo delas pela viagem...


sexta-feira, 3 de julho de 2009

Safo, a Vênus de Lesbos


"Parece-me igual aos deuses
ser aquele homem que, à sua frente sentado,
de perto, doces palavras, inclinando o rosto,
escuta,
e quando te ris, provocando o desejo; isso, eu juro,
me faz com pavor bater o coração no peito;
eu te vejo um instante apenas e as palavras
todas me abandonam;
a língua se parte; debaixo da minha pele,
no mesmo instante, corre um fogo sutil;
meus olhos me vêem; zumbem
meus ouvidos
um frio suor me recobre, um frêmito me apodera
do corpo todo, mais verde que
as ervas
eu fico
e que já estou morta
parece (...)

Na cova dos leões


















Onde achar teus olhos
E o que não ver neles
Me deixa olhar teus olhos
E olhe bem nos meus
Me toque o rosto
Me sinta
Não pense que estou muito longe
Não pense muito
Sinta,
minhas mãos delicadas
meu coração que não bate
e que te ama
que te observa distante nos teus sonhos
minha criança grande, meu horizonte
Me deixa amar teus olhos
que já amo tanto
Se permita, sentir-me
Veja as linhas de minhas mãos
Veja, esses caminhos, alguns traçamos juntos
Queira vir comigo
Queira sair daí, desses olhos escondidos
Voar na imensidão do abraço abrigo
Não há caminho que não possa ser retomado, mon cher.

Não houve amor maior que o meu por teus olhos
Não houve amor maior que o meu por tuas mãos, pianista...
Narciso que se refletia ao piano, subsistindo-o
Incapaz de se deixar amar
Incapaz de me deixar partir
Mas foi incapaz de me deixar ficar.



quarta-feira, 1 de julho de 2009

Noite

















O que fazer do meu corpo-corpo
Do meu corpo-noite
Do meu corpo-seiva
Essência
Meia-luz
Cataclísmico
Das minhas mãos com papel e caneta
Dos meus pés descalços
E das asas que me pesam
Da pele rascagada
por mãos indelicadas
e unhas postiças
Do frio fictício nos ossos da alma
que congelam a dor e o coração
O que fazer com a janela aberta
O peito exposto
E o chão
Onde estarão os meus pés agora
Onde não procurar em vão
O não-lugar
O eixo de rotação
E o não-abismo do corpo
A libertade
O voo leve e sólido
Onde foi parar o eu em mim mesmo
E a colisão de noites e estrelas cadentes
E o céu lúdico de seus olhos
Uma vida inteira
Em uma única metade...