Ainda posso escutar os cascos dos cavalos ocos e as carruagens passando pelas ruas de Viena. Chove lá fora e há muito frio dentro do meu coração. Há um vazio intenso sufocando o meu peito. A presença dele persiste pelos quatro cantos da casa. É algo insistente. Ele nunca veio aqui. Mas nunca deixou de fazer parte de um universo paralelo ao meu ser, que distante tem o enorme poder destruidor para desintegrar as coisas a minha volta. Ele rouba meu chão quando bem quer tocando piano para mim. A sua maldita música perfeita feita para mim. Ele a toca para mim, quando sente saudade e eu posso escutá-la através de um canal invisível que nos une na dor do não poder ser. Ser feliz era bem mais simples, mas tinha um fascínio doentil pelo caos. Seu narcisismo exacerbado, extravasado nas mãos ageis que percorriam o piano com uma intensidade profunda. Era quase um suicidio. E essa chuva que não passa! E essa saudade que não passa! Posso sentir os acordes do seu coração, ele pulsando em um compasso sobrehumano. Depois de tudo... O que ele queria? Eu posso ouví-la. Quero dormir, mas ela me chama loucamente, convidando-me para compartilhar de sua insurdecedora insônia. Me deixa, dormir.
Mas ele toca com mais força, como um louco surdo. Que não consegue suportar o próprio silêncio existencial. Não conseguia entender que o silêncio do seu coração era uma tortura masoquista para mim. Por que existias somente nas cartas? Por que não existes por completo? Por que não me deixaste partir. Já rasguei as cartas, todas elas numa atitude desesperada de te arrancar de mim, mas porque instistes, mon cher?!
Mas ele toca com mais força, como um louco surdo. Que não consegue suportar o próprio silêncio existencial. Não conseguia entender que o silêncio do seu coração era uma tortura masoquista para mim. Por que existias somente nas cartas? Por que não existes por completo? Por que não me deixaste partir. Já rasguei as cartas, todas elas numa atitude desesperada de te arrancar de mim, mas porque instistes, mon cher?!


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