segunda-feira, 15 de junho de 2009

O Teatro...


















Ele apareceu do nada, com um sorriso lindo, mas até então, não era tão lindo assim. Era somente alguém pedindo uma informação óbvia para começar uma conversa. Era quase um menino, que nem barba tinha, que usava uma camisa amarela clara, short florido, havainas e boné. Tinha um sorriso fácil... Dei a informação com uma certa indiferença. O nosso ônibus chegara. Mesmo com toda indiferença, procurava um lugar onde o outro banco também estivesse vago. Sentei-me ao lado da janela e ele me seguiu... E essas coisas que a gente não entende, e essa vida que não entende.
Estava tão absorta em meus problemas, final de semestre da faculdade, mudança, viagem. Ele começou a me perguntar coisas que eram respondidas laconicamente, mesmo assim persistia, e eu olhava pela janela. Disse-me que já estava de férias, então perguntei "do colégio?" E a resposta veio rápido "Não, estou no segundo semestre da faculdade. Eu faço Direito!"
Fiquei surpresa e o olhei. Foi quando vi o seus olhos pela primeira vez e me conduziram a um transe mágico.
Ainda não me lembrava do teatro... De Paris, no inicio do século. De estar perto das escadarias da Ópera Nacional de Paris, no teatro Garnier, rodeada de pessoas mais velhas, mulheres elegantes, cobertas de joias e suas piteras. Ao meu lado, um homem alto, meio antipático, austero, que entrelaçava o braço ao meu. Mas estava ansiosa. Esperava alguém? Parece que sim, não tirava os olhos da porta de entrada e não estava muito interessada no que falavam essas pessoas em minha volta. Sorria educadamente e balaçava a cabeça. Meus sentidos estavam voltados para a porta...
Usava um vestido delicado, um decote descreto e um penteado jovial com alguns fios sobre os ombros. Os violinos ao fundo deixavam o ambiente ainda mais nostálgico, mas parecia que pisava em pétalas de rosas... Sentia um grande vazio dentro de mim, um aperto no peito, minhas mãos estavam tão frias... Estava ali, porém era se não estivesse.
Eis que surge alguém, meio atrasado com um smoking que possivelmente não era seu, tinha uma forma de olhar... Nossos olhos se entrecruzaram e sorriram numa cumplicidade que só nós dois compreendiamos. Naquele momento, eu fui a mulher mais feliz do mundo, a mais amada, a mais bonita.
Nenhuma palavra fora dita, nenhuma aproximação fora do limite de segurança, nenhum gesto esboçado, nada. Somente os olhos se comunicavam em lindas declarações e juras de amor eterno. Porque já o amava, eu já era ele. E ele sempre fora o meu coração que batia longe do meu peito.
Mesmo não sabendo de tudo, havia algo naqueles olhos, naquela forma de olhar e me dizer coisas, de me resgatar e despertar o melhor que há em mim, de me fazer sentir de novo o coração batendo.
Como não reconhecer teus olhos? Ainda sob o efeito do transe era capaz de compreender o porquê que a gente nasce, respira, caminha, trabalha, sorrir, chora, sofre, o porquê que a gente vive... Eu nasci para amar-te. Nasci para amar teus olhos...

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