quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Solos ao piano

















Estava sem sono e resolvi tocar, porque a minha saudade tinha um nome. Muito de meus pensamentos eram imprecisos, desencontrados. A sobriedade dos móveis luxuosos da sala não alcançavam a minha alma, não interagiam comigo, sendo algo a parte de um mundo denso e coeso. Mas eu não era nada disso. Eu não estava ali de fato. Atendia ao apelo desesperador de meu ser em busca de um abrigo. Pensei no piano. Não sabia escrever poesias, nem falar de amor, como minh'alma precisava ouvir. Talvez a música pudesse me levar dali. Em meio a um transe agudo, minhas mãos não sofreavam as teclas, já não me pertenciam, com também as teclas, ao piano.
E toquei docemente, como se o visse sorrir, como se também lhe sorrisse. Havia me esquecido do quanto era lindo, e que olhá-lo era algo indelével... Meu eu se regozijava de uma alegre sensação de voo, meu coração batia em liberdade.
Tocava, porque não podia gritar o seu nome, como se o achasse em meio aquela sonata, embalada por uma chuva em pleno outono, que escorria pela vidraça, abafando o som. Paris fica ainda mais linda no outono: jamais été la grammaire française du vrai problèma pour vous, ma vie... Também sentia saudades do seus braços.
O que era vida então, antes de vê-lo? Tudo estava diferente, o dia ganhara cores vibrantes, as nuvens formas, o mar me dizia algo dele. Mas a música... A música era uma passagem secreta para minha alma confessa. O pianista nunca compreendia o porquê de sua música não alcançar o meu coração, se perdia pelos inúmeros labirintos do meu corpo, até a mais sublime, e o intenso se dissipava na primeira batida que me levava para longe. Agora tudo faz sentido, não obstante, ainda não fazia naquele momento, simplesmente tocava.
Meus pensamentos eram guiados por aquela forma de olhar, tinha os olhos serenos de um brilho peculiar e cúmplice. Sabia o que sentia, o que pensava sem precisar dizer palavra alguma. Era estranho... Como se já o conhecesse e já o amasse de antes, sempre. Mas de onde? De sonhos distantes... estranho...
Tocava, porque não podia dizer que o amava etecétera, eteceteramente...
Paro debalde...
Aplausos!!!
_ Êtes-vous a jouer du piano et mieux mieux, ma belle...
Aquele homem em pé tão frio como a coluna de mármore na qual se encontrava encostado era uma forma cruel de me trazer para a realidade. Passei a não querer mais desposá-lo.
_ Oui, monsier...
Fecho o piano.

sábado, 28 de novembro de 2009

Travessia















Acho que já passei por aqui
Fazendo chover do meu jeito
Quando não quis ver o sol de qualquer forma
Imaginei a ponte
Suas mãos
E o meu coração batendo forte
A ansiedade dos passos
Na sutileza do tempo
Na leveza dos pés
O calcanhar de Aquiles
Olhos, olhares
Bocas
Sorrisos
O abraço-saudade
E o que restou do caminho
Molhado de chuva
Na presença do sol
A travessia
A nuvem que foi embora
E a maresia

Não mais...


















A chuva caía...
Não mais
Podia olhar para trás
Nem levar
Aquilo que podia ser indispensável
Do que sobrou
Não sei dizer
Porque não trago comigo
Ultimamente, esqueço coisas
Já não lembro
Isso também não quer dizer
que deixou de existir
Só não consigo mais parar
Eu tenho o tempo...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Por esses dias...

Por esses dias
Chovia
E precisei de um remédio para alma
Percorri ruas inteiras sem guarda-chuva
Porque não me molhava
Queria o frio de que não gostava
Sentia o cheiro da terra
O chão das calçadas
Eu era
Aquilo que não chegava
O que talvez não pudesse ficar
Ao certo, não sendo
Ficava deserto
O coração e os versos a mar aberto
E o tempo
Era um tic-tac preciso
Ainda era dia
Mas em peito nada acontecia
Só chovia, chovia
Mas também não via a chuva
Só o barulho
Só o silêncio
De meus passos avulsos
Já não esquecia
A lembrança pela vidraça escorria
Somente pensei
Ao certo, não sendo
Nada serei
Por que se não há distancia entre a chuva e eu
Acho que sou
Que somos
E nada se pode deixar de ser
Aquilo que nasceu para ser chamado por mim
De meu amor
De uma chuva minha
E por esses dias,
Apenas, vida...

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Rosas, a caminho...
















Quero colher as rosas de meu jardim
Mas tenho uma pressa muito minha
Tenho fome de tempo
Tenho sede de espera
Falta a calmaria da brisa
E a certeza de que as pétalas
Tenham o perfume da pele
E a saciedade perpétua
Eu, tempo
Eu sou espera
E as rosas talvez começem a surgir
Mas a ansiedade dos meus olhos
Não conseguem alcançar
O desenho perfeito
Do sorriso mais lindo
No abraço que quero
Eu tenho fome de tempo
E sede de espera
E vem em meu alcance
Percorrendo na velocidade das horas
Os pés com que caminho
Devagar
Sem pressa
Eles conduzem os ponteiros
E não havia percebido
Que todos os caminhos me levam aos seus olhos
Que por eles
Não há tempo, nem espera
E que não existe
Aquilo que não se perde
Quando se sacia de fome e de sede
A certeza de que o estar junto
Nem sempre é o estar perto
Então, as rosas aparecem
Ganhando cores e perfumes indeléveis
Meus...
Feitos por mim para mim
Teus...
Feitos de mim para ti
Com todos os versos desse jardim
Que com o meu coração conseguir plantar...

De novo, o piano?

Na casa desabitada onde me encontro
Às vezes não me vejo
No espelho em que me olho
Quando não vejo o espelho
No lugar de sempre
Casas de espelhos
Côncavos e convexos
Onde os seus olhos tomam a proporção de universo
E o piano no canto da sala
Sem móveis
E quadros se telas
À noite, toca-me uma canção de ninar
Para a insônia desfragmentada
De meus versos dormidos
Que formam o piso
da pseudocasa
Eu já disse, não insista
Eu não moro mais aqui!
Mas ele não escuta...

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Pausa















Respiro profundo
Observando a praia
Há chuvas e tornados tempestuosos
Dentro de mim
Chove a noite inteira
Um mar difuso por onde devaneia os meus passos
Pausa
Calafrios
Enxurradas
Respiro tranquila
Observo a praia
E uma serenidade oblíqua
Nevoa os meus olhos
Sento
Abraço as pernas
Reflito "como esse mar todo pode caber aqui dentro"
E eu nunca lhe disse que o amo
Acho que os meus olhos não foram capazes de lhe dizer tudo...
Temo que a vida o leve para longe
A ausência do físico é insuportável
Porque agora está comigo
Levo-o comigo aonde for
E a dor se torna leve
Pequena diante do mar
Do que possivelmente poderia ser o seu afago
Observas também o mar que há em mim
E se pergunta como ele pode caber dentro de ti
De outra forma de sentir
O que possivelmente seria saudade
Vazio
E uma vontade incrível de saltar
Estas do outro lado do mar
E observas uma cortina que nos invisibiliza
É como se o espelho d'água não tivesse luz
É como se nossos olhos estivessem em alguma parte do intenso
Que não podemos tocar
Mas estamos
Somos e seremos
O mesmo mar.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Sonhos Perdidos













Não durmo a dias
Me esqueci de onde fiquei perdida
lembrando, lembrando, lembrando...
Deixo na areia as marcas que o tempo apaga
Mas o passado dita ao meu ouvido
Quando não escuto teus passos
E me perco no escuro
Estás comigo?
E as lembranças vêm
Quando não as quero levar em mim
Me dizem coisas
Me devolvem os sonhos
E todas as pedras
Todos os passos
Em todos os caminhos
Penso, que os meus pés talvez não suportem
A luz nos meus olhos, quando acordo
E o peso no coração apertado
Então, sinto muita saudade
Tento adormecer e já não posso mais
Porque os meus sonhos não estão perdidos
Eles não eram marcados na areia
E apagados pelo tempo preestabelecido
Nunca se desprenderam de mim
Mesmo quando não escutei os teus passos
Nessa parte, travessia...
Foste a luz dos olhos meus
E a calmaria
Pois a estrada onde os sonhos não se perdem
É insone e adormecida
Sendo os meus pés nesse trecho
A minha única guia

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Onde

Aonde me leva a estrada
Que o meu coração traça
E eu sigo...
Quero percorrê-la descalça
Na chuva
Com os olhos bem abertos
E o coração tranquilo
Quero encontrar jasmins-do-campo
Perfumando os meus sentidos
Adoro jasmins
Eles se parecem contigo
Quero encontrar-me ao final
Quero ser espera
borboleta
Querubim
Quero encontrar os meus pés em mim
E eu em algum lugar.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Depois

Minh' alma está cansada
Há espinhos no caminho
Não sei aonde esconder
A rosa que me deu o teu sorriso

Entre escombros meus, percorro
Meus pés descalços estão sangrando
Já não sei o que restou
Do seu abraço em meu destino

E se me perco da luz dos olhos teus
A imensidão do meu ser
Será somente escuro
A parte onde bate o coração

Parte divina de minh'alma
luz de cada entardecer
E quando com a saudade não poder mais
Não me deixes adormecer

Uma homenagem ao amor...

Cântico a Lívia

Alma gémea de minh'alma,
Flor de luz da minha vida,
Sublime estrela caída
Das belezas da amplidão!...

Quando eu errava no mundo,
Triste e só no meu caminho,
Chegaste devagarinho,
E encheste-me o coração.

Vinhas na bênção dos deuses,
Na Divina claridade,
Tecer-me a felicidade
Em sorrisos de esplendor!...

És meu tesouro infinito,
Juro-te eterna aliança,
Porque sou tua esperança,
Como és todo o meu amor!

Alma gémea de minh'alma,
Se eu te perder, algum dia,
Serei a escura agonia
Da saudade nos seus véus...

Se um dia me abandonares,
Luz terna dos meus amores,
Hei de esperar-te, entre as flores
Da claridade dos céus...

(Francisco Xavier)

domingo, 16 de agosto de 2009

Espera


Espera, que o tempo fechou...
Guarda-chuvas a postos
Espera,
Que os teus pés não te acompanham
Que uma vida só não basta
Espera...
Quem espera sempre alcança
Conta nos dedos o passar
das horas
O relógio fora esgotado
E a um tempo muito nosso
conduz a uma sábia espera
os nossos pés descalços
Descansa, porque o mundo espera
E os teus pés precisam caber dentro de ti
Em teus sonhos
E no todo sempre...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Sei...















Já não sou quem era
Estou tão alheio a mim
As minhas próprias mãos
Como se não fosse nem uma coisa, nem outra
Nem uma parte qualquer
Do que não ficou
Perdido dentro livro pintado por Dalí
De um romance do qual não me lembro
muito bem o nome agora
Que existiu
Que existi
Que existo
Não estou no trecho que não sublinhei de verde florescente
Nem nas páginas marcadas pelo marcador invisível a olho nu
Restou uma leve marca no canto da página
Uma folha dobrada
Indicando que ali algo foi relido
Que algo fechou os olhos do coração que deixou de bater, pelo que mesmo?
E a vida transcende...
Desabrocha
Vira rocha
Borboleta
Pés, estrada e caminho
Destino
Espelho
Eu dentro de mim
Eu, um dia de cada vez
E meus pés, paciência...

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Édipo



















Onde estão os meus pés agora?
Tão cheios de calos
Tão cheios de uma tímida vida
Que aos poucos ganha forma de caminho
Sustentando o meu corpo
De areia e sal
Que descansa ao sol
Agora leve
Brisa
Jasmim
O mar perfeito de minhas andanças
Na infinidade das coisas minhas
Os meus pés não tocam o chão
Não descobrem mais estrelas
Não passam por mim quando durmo
Já não te buscam com a mesma ansiedade
Os meus pés descansam ao léu
Sob uma lua não cheia
E um céu profundamente meu
Feito por mim
Quando os vi pela primeira vez
E senti que podia ir
Senti que eles me levariam aonde eu quisesse
Sem aquela pressa de sempre
Sem precisar chegar de uma vez só...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Ensurdecimento













Não me fale mais de ti
Não quero ouvir...
Não quero saber mais de suas lindas mãos
De sua inconstância
De seus beijos sufocantes
De sua música...
Quando não se escuta a chuva
E o friozinho de madrugada
O sorriso acordando
E a melodia se torna uma simples melodia vazia
Sequência de sons de um coração
Que insiste em permanecer surdo
Que insiste que eu permaneça em teu silêncio
Quando já não amo mais o teu corpo
E a tua alma me busca
Em inspiração
Em detalhes nossos
Sempre fui o teu contraditório inatingível
Porque nunca saí de perto de tuas vistas
Estive sempre tão próxima
E não pôde me ver de carne e osso
Eu fui cartas
Odes
A perfeição melódica de sua música
Porque foste capaz de me amar mais do que tuas escalas e arpejos
Sem perceber
Intercalava-me com elas
Driblando a tua surdez
E o meu coração, que te esperava paciente
Não, não me fale mais de nós
Já não posso mais...
Liberte-me de nós
Liberte-me desses sons que não me deixaste falar...

sábado, 1 de agosto de 2009

Náufragos


Estava no meu sonho ontem. Porque eu sentia tanta saudade, procurei até encontrá-lo. E o encontrei distante, com um coração que não batia. Acordei angustiada e pedi a Deus para não pensar mais... Voltei a dormir, e lá estava você de novo. Como se quisesse me dizer alguma coisa que não podia ser dita. Alguém falava do casamento, talvez a sua possível noiva. E os seus olhos ficaram distantes, podia sentir todas as suas dúvidas e os seus questionamentos. A sua imensa sensação de vazio, um vazio que também é meu. Aproveitando uma distração dela, passou deslizando do seu sofá para o outro onde estava sentada de braços cruzados. Disfarçadamente, segurou a ponta dos meus dedos e encostou o seu rosto ao meu. Foi quando não conseguiu conter-se, e já não se importava se nos olhavam. Era a sua forma de dizer "eu estou aqui, também sinto saudade" quebrando as regras. Saí envergonhada, por não saber respondê-la quando me perguntou o que era aquilo. Você me seguia até a porta e mais uma vez tentava me dizer alguma coisa e não conseguia. Somente me perguntou "quantas vezes ficamos juntos?"Mas uma coisa era certa, ao início, não era naturalmente você, porém depois era o meu amor de sempre, com o coração batendo espaçado. A nossa velha cumplicidade, a troca de olhares, toda a sua proteção, da qual sinto muita falta. Está muito difícil, ter que caminhar somente com os meus pés... Mas tenho que seguir viagem. Um mar de ideias confusas me assola em meio ao silêncio de passos vagos, sempre em frente, um pé trás outro. E assim me descubro em mim mesma, algo pleno, cheio de labirintos subterrâneos a mar aberto, naufragando em caminhos que antes eram dispersos, indefinidos. Algumas vezes, quando a saudade é maior que o mundo, é que corro para os seus braços, quebrando as regras... Quando tudo isso acabar e os meus pés, descansando juntos aos seus, todo o esforço terá valido a pena... Talvez só agora aquela sua pergunta faça sentido e possa resumir tudo com uma outra pergunta a ela "E quantas vezes estivemos separados?"

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Toda uma vida














Como era ela, vovô? Os olhos do avô brilharam e um sorriso também iluminara o seu rosto. Falava sorrindo como sempre, com um sorriso no canto da boca, e com os olhos lânguidos voltados para dentro. O avô respondia pausadamente as perguntas do menino. Ela era encantadora, não sabia ao certo o que sentia quando a via... Era mágico poder olhar aqueles olhos e transceder para dentro deles. Sabe quando você consegue se ver projetado em alguém, e ser capaz de ficar horas e horas observando uma figura de uma delicadeza singular?! O mundo se resumia ali, meu mundo era ela.
E por que não ficaram juntos? Passei toda uma vida evitando essa pergunta. O velho sorria suave olhando para os lados. Mas era ela mesmo na loja de doces? Insistia o menino curioso. Talvez... Ela foi poetiza, musa lírica de Aristóteles, que cantou o amor intenso à flor da pele. Me esperou voltar da gerra, quando eu não voltei. E não aguentou de saudades. Sua dor descarnava meu peito.
Então, a vi ressurgir linda ao piano. E na escadaria do Teatro Garnier. Depois de tanto tempo, ela passava por mim como se estivesse ao alcance de minhas mãos. E eu não entendi muito bem o porquê de poder não ser minha.
Eu a quis tanto... E nunca pude esvaziar do peito esse querer. A minha vida toda ficou marcada com uma enorme sensação de falta algo.
Nesse momento, o velho já não se importava de estar falando tudo isso a um menino de apenas nove anos de idade. Ele queria muito falar, tirar de dentro do coração aquilo que mentira existir, e vendo-a ali passando com aqueles olhos, os meus olhos cúmplices, tão perto...
E pensou na pele branquinha, no sorriso sereno na boca carnuda, de lábios suntuosamente desenhados que percorreria com os dedos depois de saborear o beijo... Sentado no banco, recuperava as forças das pernas, enquanto a via entrando no carro e de novo partindo.

sábado, 18 de julho de 2009

Moinhos

















Sinto falta das asas
Liberdade é querê-las
E não desistir delas...

Subsistindo labirintos, meus olhos
Que me vão de encontro
Ao acaso de meus porquês insólitos
De meu coração insólito
De minha vida insólita
Que no chão é refletido um mar de estrelas
E eu sempre buscando sonhos
E eu sempre buscando uma forma de te levar comigo
Como se dentro de mim houvesse o infinito sem ti

Sinto o peso das asas
Mas caminho,
Há tantos calos nos meus pés
em meus destinos
Já não pergunto
Os teus silêncios me respondem como brisa
E em meus sonhos
De súbito, um leve beijo
E a vida, leve por alguns instantes

Às vezes é difícil ser quem somos
Sobreviver ao inferno de Dante
Tocando o chão
Como a sutileza de pés que caminham
Na direção qualquer de meus moinhos
Eu, Quixote
Eu algo que busca
Que devaneia um mundo perfeito
Para ancorar meu peito

Liberdade é estar assim
louco de amor
E com as asas que quis para voar...

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Estou
















Observo a chuva em silêncio
com uma vontade louca de me molhar
Mas gato escaldado...
Adoro o barulho
E o cheiro da chuva
Adoro lavar a alma
Adoro quando os meus olhos podem ver
além de mim
E tudo parecendo novo
Adoro a minha chuva em silêncio
Contemplativo
Apático
Ensurdecedor
Adoro a chuva que passa
O cheiro da terra que fica molhada
cheia de vida
Adoro a simplicidade desses versos
dizendo tudo
A chuva chovendo
As poças d'água
A minha vida chovendo
Estalando na telha
Descendo pela vidraça
Tão claramente
Que posso tocá-la
Sentindo toda a paz que buscava
Agora, estou...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Allende...












"Tira as tuas sandálias dos pés, pois a terra em que tu pisas é santa... Ex. 3:5"

E vou sentindo a areia fininha, enquanto os meus pés se firmam no chão. Ando como uma criança que dar os seus primeiros passos, meio cambaliantes, sem equilíbrio, sempre em frente. Vou em direção ao mar tranquilo e calmo que vejo distante, diferente das grandes ondas que se chocam com as infinitas pedras subterrâneas do meu peito. Dentro de mim há muitas perguntas confusas e medos desconcertantes ao léu, com ventos tempestuosos que desenquietam os meus olhos, mudando o curso do rio, que está destinado para uma outra margem "allende" que vai de encontro a um mar maior que eu.
Sinto um frio insuportável, como se eu fosse a personagem principal de um filme de Buñuel, mas gosto de estar descalça, gosto de sentir a liberdade dos meus pés por onde passo, pois cada grãozinho de areia é uma parte integrante de mim, que faz parte do meu caminho, formando o chão onde piso e dando com precisão a direção dos ventos e dos meus olhos, o horizonte.
Por enquanto, sou sensações que ocilam entre extremos exacerbados e dementes, entre seus olhos e o que não quero deles, entre o instante de agora e o relógio infinito, entre o que foi dito e as reticências dos caos. Por enquanto, ainda não sei quem sou, mas gosto do intenso, de ficar descalça, de me buscar em terras onde não estarei nunca, de me achar por acaso e me perder de novo. Numa eterna busca, para um eterno retorno. Porque sempre serão curiosos os meus olhos e a minha vida nada perfeita para escrever histórias. E me espera um mar calmo, dentro e fora de algo que virei a ser, "allende".


Quase

Parei por instantes meus...

Parei para sentir um pouco mais de saudade
Para relembrar
Para ter a certeza que não vou esquecer
Parei por instantes seus
Por seus olhos
Pelo que não foi vivido
Para mais uma vez sentir o seu abraço
Parei por instantes nossos
Para dizer que vou te amar até o último dia de minha vida
E que vou não sei para onde
Parei porque ainda tinha tanta coisa para falar
Mas, por hora, o silêncio é necessário
E já diria tudo, como sempre disse
Agora já vou ter que ir
Voltarei a caminhar
Pensar em ti sempre é muito bom
E não podia partir sem me despedir
Meu amor, minha vida

domingo, 5 de julho de 2009

Ainda não defino a direção dos ventos...

Ainda não defino bem a direção dos ventos, também ainda não baixou a poeira, paciência. Sua imagem rarefeita segue flertando comigo, mesmo que ao longe, em tons pastel e cinza, ainda é capaz de ferir-me, mas já não me importo mais, deixa doer... até que sare de vez, até que morra de vez para mim, e possa eu, submergir do transe e do seu mal amado amor.
Observo o que restou, e fico olhando longas horas, sem mexer qualquer coisa e um silêncio me invade. É esse silêncio que dialoga comigo, um silêncio repador, um fogo-amigo.
Arrumo as malas para seguir viagem. Não há muito que valha a pena levar. Estou deixando muita coisa para trás. Em uma caixinha gurdei as fotos, as lembraças , o sorriso e o jeito único de olhar-me. Será que olhando-me da mesma forma, me veria do mesmo jeito? Acho que não. Estou tão diferente, tenho muitas marcas pelo corpo, que já não fica em pé sozinho, talvez nem te olhasse nos olhos...
Em todos esses longos caminhos, nunca foi tão forte o acordar de um sonho, vendo tudo sendo desvastado e descolorido bruscamente, nem te perder doeu tanto, quando agora... Talvez porque nunca senti que estivesse longe de fato.
Enfim, parto. Paro pela última vez para olhar para trás. E ficarei assim não sei por quanto tempo. Havia algo de bom embaixo dos escombros, só não quis remexer. Preferi pensar que não, senão não teria coragem de partir. Coisa minha. O meu amor por ti foi tão destruidor quanto suas palavras que ainda ecoam na minha cabeça, simplesmente escuto-as para ter a certeza que já era hora de ir. Mesmo sem direção definida, um barco qualquer, um cais, nada. Irei de encontro ao meu destino, aos meus olhos, com meus próprios pés e minhas próprias mão, levando como bagagem, as inúmeras marcas no meu corpo e as suas palavras amargas para ir me desfazendo delas pela viagem...


sexta-feira, 3 de julho de 2009

Safo, a Vênus de Lesbos


"Parece-me igual aos deuses
ser aquele homem que, à sua frente sentado,
de perto, doces palavras, inclinando o rosto,
escuta,
e quando te ris, provocando o desejo; isso, eu juro,
me faz com pavor bater o coração no peito;
eu te vejo um instante apenas e as palavras
todas me abandonam;
a língua se parte; debaixo da minha pele,
no mesmo instante, corre um fogo sutil;
meus olhos me vêem; zumbem
meus ouvidos
um frio suor me recobre, um frêmito me apodera
do corpo todo, mais verde que
as ervas
eu fico
e que já estou morta
parece (...)

Na cova dos leões


















Onde achar teus olhos
E o que não ver neles
Me deixa olhar teus olhos
E olhe bem nos meus
Me toque o rosto
Me sinta
Não pense que estou muito longe
Não pense muito
Sinta,
minhas mãos delicadas
meu coração que não bate
e que te ama
que te observa distante nos teus sonhos
minha criança grande, meu horizonte
Me deixa amar teus olhos
que já amo tanto
Se permita, sentir-me
Veja as linhas de minhas mãos
Veja, esses caminhos, alguns traçamos juntos
Queira vir comigo
Queira sair daí, desses olhos escondidos
Voar na imensidão do abraço abrigo
Não há caminho que não possa ser retomado, mon cher.

Não houve amor maior que o meu por teus olhos
Não houve amor maior que o meu por tuas mãos, pianista...
Narciso que se refletia ao piano, subsistindo-o
Incapaz de se deixar amar
Incapaz de me deixar partir
Mas foi incapaz de me deixar ficar.



quarta-feira, 1 de julho de 2009

Noite

















O que fazer do meu corpo-corpo
Do meu corpo-noite
Do meu corpo-seiva
Essência
Meia-luz
Cataclísmico
Das minhas mãos com papel e caneta
Dos meus pés descalços
E das asas que me pesam
Da pele rascagada
por mãos indelicadas
e unhas postiças
Do frio fictício nos ossos da alma
que congelam a dor e o coração
O que fazer com a janela aberta
O peito exposto
E o chão
Onde estarão os meus pés agora
Onde não procurar em vão
O não-lugar
O eixo de rotação
E o não-abismo do corpo
A libertade
O voo leve e sólido
Onde foi parar o eu em mim mesmo
E a colisão de noites e estrelas cadentes
E o céu lúdico de seus olhos
Uma vida inteira
Em uma única metade...

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Nós


















Nós e a lua
Um momento preciso
O risco
E a montanha
Passos insólitos
Falta de chão
De ar
E o coração que não aguenta
Mãos frias
Aparente calma
Tudo sob controle
Neblina
Espera
E o medo de não mais sentir o abraço
Tudo ganha sentido
Formas e cores
E beijos de brisa
Na leveza de versos que te procuram
O suspiro
O silêncio
E a melancolia de um coração sem rumo
Confuso e cativo
É uma prisão que não me sinto estar
É uma prisão da qual não quero a liberdade
Que liberdade faria sentido longe dos teus olhos?
E o que faria desses versos
Dos meus sonhos
Do meu cansaço
Sem a lembrança-abrigo
O Porquê dos calos nos pés
Tudo perderia o sentido
Formas e cores
E a superficialidade dos passos
Apagaria a entre-linhas
E toda uma razão de ser da poesia...

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Ao mestre com carinho



















Mestre, até quando falar de amor
intercalando com dor e saudade
em um único poema nosso
Onde começa a vida?
Onde termina a dor?
Por onde recomeçar os meus passos
Os meus versos
O meu não olhar poético
O mundo de fato
Calado
Um mundo real

[onde estrelas são somente estrelas
e ele seria somente o menino do ônibus
que nem barba tinha
Quando ele começa a ser poesia
Verdade
Amor perfeito
E o melhor que há em mim
E o seu sorriso e o seu olhar
passam a ser coisa mais linda que possa existir
Sendo o meu próprio coração batendo fora do meu peito
Isso é tão real
quanto cruel
Porque a saudade leva consigo
Às vezes a esperança
Às vezes o abrigo
E o superficial onde piso, poeta.
O que fomos de fato
E o que escrever de fato
sem entrelinhas
nem esboços
Sem a lembraça dos teus braços...
Olhos que se confessam
em sonhos
A presença é constante do que está faltando
E eu sou apenas uma parte
Caminho com correntes em meus pés até quando durmo
Escrevo com o coração na mão
Na certeza de encontrar respostas que não busco
Porque essa certeza boba está dentro de mim
E simplesmente sinto...

Ela ao piano


Devia ter uns sete anos ou menos, quando o vi pela primeira vez. Ficava num canto escondido na pequena igreja de minha nova cidade, e eu não conseguia entender o porquê não era tocado. Para mim, era algo suntuoso, todo negro. Imaginava que tipo de som poderia sair de suas teclas, como que os meus dedos poderiam passear por ele, acariciando-o, tecla por tecla, regendo-as ao ritmo frenético de meu coração agitado. Podia tocá-lo? Sim! Poderia. Como se chamava? Não me lembrava ao certo do que poderia ser um piano. Nunca o vira igual, eu simplesmente sentia-o pulsando, e minha alma era capaz de comunicar-se com ele. Eu o queria, tinha necessidade dele.
Ao dormir, ficava arquitetando uma forma de lograr êxito na minha empreitada, de como realizar tal proeza. Profanaria o piano como os meus dedos desencontrados ou ouviria o seu magnífico som, reticente, vibrante, uma passagem secreta ao alcance de minhas mãos... uma tecla que me ligava a você, quando já te procurava, e nem sabia.
Acho que foi nesse momento que comecei a pensar que a música sempre deveria dizer alguma coisa, quando não sabemos ao certo o que sentimos. E ela passa a ser algo sublime que nos condiciona ao deleite de sairmos do corpo e da mente, chegando a um espaço inviolável de nosso ser, que não se pode tocar sem uma sonata doce ao piano. Um lugar surdo onde podemos encontrar a nona sinfonia...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Ele...













Ele adora o mar
E eu adoro o mar que ele adora
Está sempre moreno
Ele é de peixes
Não sei como ainda não morri de saudades...
Ele adora o mar
E eu adoro mar que ele forma
quando com os olhos me sorri
e me olha daquele jeito bravio,
chocando-se contra as pedras subterrêneas
do meu ser que o completa
Ele adora o mar
E eu adoro o mar que ele adorna
Passeando por ondas
com cristaisinhos de sal pela pele
e olhos de pôr-de-sol.
Ele é de mar
E eu adoro contemplá-lo
sem pressa
nos míninos detalhes.
Em mínimos versos de maresia
Sorrindo horizonte
Infinito
Distante
Ele é único e mar
O meu Egeu
Da cor do ouro
E eu simplesmente o adoro...

terça-feira, 16 de junho de 2009

Adoooooooooooooooro ele!!!!
























Pareço uma mochiiiinha,
mas sou eu, Rei Julien!

Por enquanto...




















Enquanto o tempo não passa
Enquanto a vida não passa
Enquanto você não chega
Calo...
Silencio os meus pés
e os meus olhos
Por enquanto...
Não aguento o peso das asas
Não aguento os calos nos pés
Não gosto de pensar assim, mas penso
Enquanto não conseguir arrancá-lo de mim
Com as minhas próprias mãos
Com os meus próprios versos
Nunca foi parte da minha estrada de tijolos amarelos
Nem do meu coração cativo
Que bate fora do meu peito
Por enquanto...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O Teatro...


















Ele apareceu do nada, com um sorriso lindo, mas até então, não era tão lindo assim. Era somente alguém pedindo uma informação óbvia para começar uma conversa. Era quase um menino, que nem barba tinha, que usava uma camisa amarela clara, short florido, havainas e boné. Tinha um sorriso fácil... Dei a informação com uma certa indiferença. O nosso ônibus chegara. Mesmo com toda indiferença, procurava um lugar onde o outro banco também estivesse vago. Sentei-me ao lado da janela e ele me seguiu... E essas coisas que a gente não entende, e essa vida que não entende.
Estava tão absorta em meus problemas, final de semestre da faculdade, mudança, viagem. Ele começou a me perguntar coisas que eram respondidas laconicamente, mesmo assim persistia, e eu olhava pela janela. Disse-me que já estava de férias, então perguntei "do colégio?" E a resposta veio rápido "Não, estou no segundo semestre da faculdade. Eu faço Direito!"
Fiquei surpresa e o olhei. Foi quando vi o seus olhos pela primeira vez e me conduziram a um transe mágico.
Ainda não me lembrava do teatro... De Paris, no inicio do século. De estar perto das escadarias da Ópera Nacional de Paris, no teatro Garnier, rodeada de pessoas mais velhas, mulheres elegantes, cobertas de joias e suas piteras. Ao meu lado, um homem alto, meio antipático, austero, que entrelaçava o braço ao meu. Mas estava ansiosa. Esperava alguém? Parece que sim, não tirava os olhos da porta de entrada e não estava muito interessada no que falavam essas pessoas em minha volta. Sorria educadamente e balaçava a cabeça. Meus sentidos estavam voltados para a porta...
Usava um vestido delicado, um decote descreto e um penteado jovial com alguns fios sobre os ombros. Os violinos ao fundo deixavam o ambiente ainda mais nostálgico, mas parecia que pisava em pétalas de rosas... Sentia um grande vazio dentro de mim, um aperto no peito, minhas mãos estavam tão frias... Estava ali, porém era se não estivesse.
Eis que surge alguém, meio atrasado com um smoking que possivelmente não era seu, tinha uma forma de olhar... Nossos olhos se entrecruzaram e sorriram numa cumplicidade que só nós dois compreendiamos. Naquele momento, eu fui a mulher mais feliz do mundo, a mais amada, a mais bonita.
Nenhuma palavra fora dita, nenhuma aproximação fora do limite de segurança, nenhum gesto esboçado, nada. Somente os olhos se comunicavam em lindas declarações e juras de amor eterno. Porque já o amava, eu já era ele. E ele sempre fora o meu coração que batia longe do meu peito.
Mesmo não sabendo de tudo, havia algo naqueles olhos, naquela forma de olhar e me dizer coisas, de me resgatar e despertar o melhor que há em mim, de me fazer sentir de novo o coração batendo.
Como não reconhecer teus olhos? Ainda sob o efeito do transe era capaz de compreender o porquê que a gente nasce, respira, caminha, trabalha, sorrir, chora, sofre, o porquê que a gente vive... Eu nasci para amar-te. Nasci para amar teus olhos...

domingo, 14 de junho de 2009

Sombras de dúvidas
























Ele saiu. Levava somente uma mala velha com seus pertences pessoais, um dinheiro sem valor corrente, um velho relógio de pulso... Era a primeira vez que vira o Sol depois de tanto tempo. Sentia o Sol que lhe queimava a pele, que lhe ardia os olhos, mas lhe foi indiferente. Era o Sol! Sim, era somente o sol...
Caminhava calado, no sentido contrário dos carros. Não cumprimentava pessoas. Estava tão absorto tentando entender a sua nova condição e tentando dar um novo sentido a palavra liberdade. Redefini-la, sentindo-a de uma forma concreta que se projetava além de seus sonhos e de seus desejos mais íntimos de possui-la.
Sem caminhar em direção a algum lugar, com um olhar distante, alheio aquele mundo tão diferente do imaginado, cansado e sobre seus próprios escombros, parou... Ficou quieto. Preferiu não pensar em liberdade. Estou livre?

sábado, 13 de junho de 2009


Leveza
Chuva
Brisa
Posso dormir em paz
Agora, sim
Minha alma está tranquila...

A Bandeira, o meu mestre, o meu Enéias...














Meus dedos definham
Não posso ver um papel em branco e uma caneta
E os poemas vão surgindo como barquinhos de papel
Leves, ao vento
Sem rumo certo
E sua imprecisão afaga meu ser de ternura
A dor enobrece
Vira uma linda rosa
Perfumada e triste
Um mar bravio que com as pedras se redime
A tempestade pavorosa se transforma em cheiro de terra molhada e barulho de chuva estalando na telha
Seus olhos adquirem uma melancolia doce
Seu sorriso se projeta em todas as coisas belas do meu mundo
E o seu abraço, eu o guardo só para mim
Ser poeta é um modo de vida
É um estado de espírito
É esperá-lo todos os dias inexplicavelmente
É quando o jugo é leve
Porque a dor enobrece
Quando se aprende a amá-la
Se ama de fato um dia...

Meus olhos...


Vejo uma enorme janela aberta e um céu infinito cheio de nuvens que parecem de algodão. Depois de uma enorme tempestade de areia que escondeu os meus pés de mim.
E meus olhos que ainda estão vermelhos e ardendo, mal consigo abri-los, mas já me é possível enxergar algo de azul que tranquiliza e afaga o meu ser que se perdia de mim.
Caminho? Destino? Pedras? Asfalto? Redemoinho de pensamentos? Acho que um pouco de tudo
, acho também, que os meus pés estavam descalços e não conseguia compreender muito bem o frio e sua presença na minha vida.
Embora aja muita poeira e o mar esbravejando toda sua fúria, posso dizer que já não o vejo refletido em meus olhos, em meus horizontes confusos, em meu coração que já não bate e não responde. Então, o que os meus olhos veem? Aquilo que não queria enxergar? Que nunca habitaste o meu não lugar cativo. E o que existiu ali de fato? E o que não existiu, se não houve amor algum, o que me trouxe até aqui, e me permite ver que as travas da janela já não existem mais, e as feridas enferrujadas da alma já não a emperram mais. Estarei livre agora?

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Partes...












Partiu, assim meio assustado e órfão. Foi como se mais uma vez você se fora para não mais voltar. E uma parte qualquer de mim, aquela que só pertencia a nós dois, fosse junto também.
A alma, por um instante, mergulhou em uma solidão profunda de silêncio e dor, e uma música ao fundo embalou os meus sentidos...
Lembrei-me de quando o viu pela primeira vez e tocou para mim uma música qualquer dos beatles e depois "Detalhes" meio desafinado. Senti naquele momento que já o conhecia de muito tempo, e de que não gostava da sua música... Sua maldita música perfeita, aquela de que sentia falta, que saía do seu coração para o meu coração em acordes sinceros que eram capazes de dizer tudo aquilo que silenciávamos nos beijos. E me pedia "toca", mas eu nunca peguei em um violão antes, e mesmo assim insistia "toca, linda, toca"
Enquanto o seu novo dono o testava, "Nossa, é um bom violão! Gostei dele, vou levá-lo", dedilhava a nossa música qualquer dos beatles, a do primeiro beijo, a primeira tocada para mim no violão novo. E por último tocou "você", parecia uma brincadeira de muito mau gosto do destino. Mas uma vez aquela maldita música perfeita que saía do violão meio engasgado, despedindo-se lindamente, sem ressentimentos. Estávamos em paz uma com a outra.
Pude compreender que não a odiava de fato, que era uma música perfeita, feita por amor, com amor, para um amor imortal.
Do sempre meu, sempre sua, sempre nossos... em outros tempos...

A Don Pablo


Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Pablo Neruda

Ser poeta Don. Pablo é padecer no paraíso
Pois ser poeta é um estado de espírito...

Eu em mim mesmo















Eu em mim mesmo
Eu e meu tempo
Eu e minhas asas pesadas
Eu, um caderno na mão e poesias
Eu sem eu mesmo
Eu, metade que parte
Eu, metade que volta
Eu em ti sou eu comigo
Eu em teus olhos, sou eu refletido
Eu com saudade, sou meu amor triste
Eu que persiste
Eu que nunca desisti
Eu que ama incondicionalmente o tempo da gente
Eu que te espera, sou um eu ansioso
Eu que sonha, sou um eu com esperança
Eu e essas asas pesadas
Eu e esse tempo de espera
Eu que não sou eu sem ti
Eu metade
Eu poeta
Eu que sabe que não há tempo perdido
Pois o amor foi redimido
Pelo próprio amor construído
Eu que te espera, até o último dia de minha vida...

O não grito



















Gritei com toda a força da alma
para que não me escutasse.
Tapei os ouvidos com as duas mãos
Arranquei os cabelos
Rasguei-me com as unhas
Com tanta força para não deixar marcas
Para não sair sangue
Desfigurei a poesia
Os seus retratos invisíveis
Destrui todas as cifras de música que encontrava pela frente
Mesmo assim, não parou de doer
E eu não esquecia...
Tudo tão empregnado de ti
que se desintegrava lentamente
porque chovia
E todas as últimas chuvas
estava com o pé entre os seus...
Não sei terminar isso
É como o quadro de Munch
O grito surdo é infinito
Chega a todos os confins do mundo
Emoldurado pela dor
Preso
E ensurdecedor, o silêncio...

Por um momento...



Queria arrancar o meu coração com as minhas próprias mãos
Queria que parasse
O relógio
desintegrando os ponteiros
virando pó
para não poder tocar teu rosto
Não ter lembrança alguma de que um dia
foi sonho
Pele
Cheiro
Perfume
Um pouco de vida.
Mas não é bem assim
tampouco é mal por completo.
Foste algo de essência
Bálsamo
Pecado
E acolhida.
Abraço
Saudade extravasada
Ansiedade
Música e melodia.
Por um momento
de intensa vida
Uma dor avassaladora redimi
Liberta o coração do amor
que não sabia amar
Com as próprias mãos
Com os próprios versos.
Volto
Caminho
E oro.
Já não aguento o peso das asas
simplesmente com os pés na água
Vejo
Sofro
E durmo.
Ainda há algo dele em mim
Ainda há algo de mim em algum lugar...

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Largo



















Mi amor,
Estás en mi corazón
Como una sinfonía dulce de Vivaldi
Un vals lleno de amor constante
Un amor que grita
Pulsa
Vive
Ama
De una forma asombrosa
Un amor inmenso que contagia a toda la gente
Despertando todo y cualquier amor
Insomnio en el pecho más dormido
Porque eres eso…
Podría reconocerte en una muchedumbre
Tus ojos, amor
Tus ojos…
De una melancolía dulce,
Únicos,
Me tocan a mí
Y ya no sé lo que soy
Podría mirarlos por horas, días…
Hasta que los míos hipnotizados
Cansen de ver lo bello de las cosas de Dios
Porque todas las cosas bellas que hay en ese mundo
Están embarazadas de ti
De la presencia persistente de tu melancolía dulce
De tu sonrisa, amor
Tu sonrisa...
Ambrosía de mi alma cansada
Por cuántos caminos, amor
Caminamos descompensados
Siempre te lo dejé mis huellas
Buscando las tuyas
Y los errores cometidos
Fue un intento desesperado
De seguimos juntos
Aunque jamás estuvimos alejados
Porque en ti encuentro personificado
Todo aquello que creo y siento
Como siendo amor, lo mío…

14/03/09

Meu único e poema














Fiz de ti um poema-vivo
Abrigo

Para descansar o meu coração cansado
Soterrado
E os meus pés descalços
Há muito caminhando
Por entre caminhos de escombros
Caminhos de eterna chuva
De eternos pores-do-sol
Entardeceres infinitos
Não sabes a quanto te busco
Por mais perdida que estivesse
Sempre achei algo de ti
Porque todos os caminhos
Sempre me levaram aos teus olhos
E a sensação de busca cessa
No teu abraço
Amado,
Somente se pode compreender um amor eterno
Quem eternamente ama
E uma vida só não basta
Imagens se confundem
Sons
Épocas distintas
Pensamentos
Ideias
Destinos
Músicas
Melodias
Tato
E sensações...
Porém, algo perpetua em meu ser peregrino
E em meio a uma avalanche dormida
Emergi em um sonho lindo
A essência
E a dádiva
A minha vida inteira
E em meio ao não poder ter
Nunca deixa de existir
Seres que se complementam
Intercalam-se
Se fundem
Corações em um mesmo compasso
Amores que se nutrem de risos
Olhares
E perfumes
Porque algo transcende ao abraço
Ao olhar
Ao sorriso
Por isso sei que nunca caminhei sozinha
Apenas, incompleta...

22/07/08

Lo mío es tuyo









Intento enterarme de tu ausencia
De que no estés conmigo
Compartiendo la falta
Viviendo todo
Como si no fuera una mitad sola
Mirando la mar y sentir
Imposiblemente el viento delicado en tu rostro
Y no pensar que es un beso mío
El cielo profundamente azul
Tranquilo
No ser igual que la paz de mis brazos
En los tuyos
En las fiestas
Llenas de ruidos de voces y risas
Aburridas
Porque le falta el sonido dulce
De mi habla
Que a tu alma tranquiliza
Que cuando duermes
Y me lo encuentras en tus sueños
Aunque no recuerdes
No te despiertes contento
Agraciado por una felicidad rara
Inexplicablemente intensa
Me cuesta creer
Que extrañar tanto a alguien
Desde lejos
Sintiendo que me voz
Mis anhelos, mis ganas
Mis alegrías, mis males y mis penas
Mis tormentas, mis ocasos
Mis aires, suspiros y el perfume de mi piel
No te alcanzan a ti
Y que los tuyos no me tocan…
Porque estás entrañado en todo
Que se acerca a mí y es bonito
Todo se parece a tu piel canela
A tu risa mañosa
Y tu mirada de estrellas
Porque eres mi corazón
Latiendo aislado de mi pecho
Y soy el tuyo
Confuso que busca un consuelo…

14/02/08

Mi silencio es tuyo














Mi silencio es tuyo
Que dentro de mi corazón aislado
Se convierte en una tormenta confusa
Sentido de la extrañeza dolorida
¿Dónde buscar la fuerza y el tacto?
Si a cada día
A cada hora
Siento que a mí estás alejado
Distante de mis ojos turbios
Opacos
De mi silencio angustiante
Que colore todo de ceniza
Amargando en mi boca
La ausencia insalubre de tus besos dulces
¿Dónde buscar las ganas de hacer algo, una cosa cualquiera?
Una risa
Si dentro de mí
Un silencio destroza
Todas mis alegrías
La felicidad de mirar el ocaso
Todo se convierte en un morado otoño
En una primera sin flores ni amor
En un invierno helado
Y verano lluvioso
Lloroso
Pleno de una llovizna triste
Que llueve en mi pecho a cantaros
Porque no hay flores en mi jardín lejos de ti
No hay jazmín
No hay nexos
Tampoco palabras
Porque dejo de existir
Y mi callo
Para seguir viviendo la vida mía
Sin la vida mía…

14/08/08


Almas










Sobre a sombra de suas asas, amor
Encontrei a ti e o meu destino
Caminho de encontro aos seus olhos
Na certeza de que o amor é forte e imortal...

Remição

















Ganhei um colar novo porque estava triste. Não queria ir ao teatro naquela noite em especial. Não queria vê-lo. Ele ia tocar para mim. E só eu sabia. Estava mais mau-humorado do que nunca. Queria que eu sentisse a culpa. Eu não conseguia mais me sentar ao piano. tudo se havia transformado em algo triste. Cada nota despetalava o meu coração. Pequenas agulhadas masoquistas, porque ainda pensava nele e o seu cheiro continuava sob a minha pele. A sua forma de amar, suas mãos tão lindas... Talvez nem fosse capaz de imaginar que eu também sofria, porque seu narcisismo não era capaz de transcender ao seu piano e a sua música que me chegava aos gritos, rasgando a unhadas a minha alma aflita, descabelando-me, tirando a minha roupa, pedindo os meus beijos e rejeitando-os. Não havia uma lógica naquilo, não era racional. Senti falta das cartas, o teu silêncio também era o meu, mon cher.
Por muito tempo tentei entender a ti... Queria senti-lo sem ser pela música. Sentir a sua pele de fato, seus beijos sem medo algum, suas lágrimas e suas gargalhadas. Estava contigo o tempo todo, querido. Queria que eu saísse da sua vida e eu fui para longe. Não suportava vê-lo definhando, ensurdecendo, fragilizado e homem. Não pelo fato de querer que fosse inteiramente meu, porque já o era. Porque tudo se desintegrou: as joias, a mobília inglesa, o piso de mármore, as colunas, os vestidos caros e os casacos de pele, quando o piano calou. Senti a falta da sua maldita música perfeita, sabias? Acho que te amei de fato e devia ter ficado ensurdecida aos teus gritos.
Dessa vez, não fui eu quem desistiu de nós. Não ouvi os teus gritos, te coloquei no colo, velei noites inteiras o teu sono, meu lindo. Redimi os meus pecados. Já não existe mais o piano entre nós e acabei de vender o violão... As coisas continuam se desintegrando, mas dessa vez eu posso partir livre na certeza de que fiz o possível e o sobrehumano para que fosse um pouco mais feliz...
Adeus, mon cher!
Adeus, lindo!

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Recordações e o piananista


















Ainda posso escutar os cascos dos cavalos ocos e as carruagens passando pelas ruas de Viena. Chove lá fora e há muito frio dentro do meu coração. Há um vazio intenso sufocando o meu peito. A presença dele persiste pelos quatro cantos da casa. É algo insistente. Ele nunca veio aqui. Mas nunca deixou de fazer parte de um universo paralelo ao meu ser, que distante tem o enorme poder destruidor para desintegrar as coisas a minha volta. Ele rouba meu chão quando bem quer tocando piano para mim. A sua maldita música perfeita feita para mim. Ele a toca para mim, quando sente saudade e eu posso escutá-la através de um canal invisível que nos une na dor do não poder ser. Ser feliz era bem mais simples, mas tinha um fascínio doentil pelo caos. Seu narcisismo exacerbado, extravasado nas mãos ageis que percorriam o piano com uma intensidade profunda. Era quase um suicidio. E essa chuva que não passa! E essa saudade que não passa! Posso sentir os acordes do seu coração, ele pulsando em um compasso sobrehumano. Depois de tudo... O que ele queria? Eu posso ouví-la. Quero dormir, mas ela me chama loucamente, convidando-me para compartilhar de sua insurdecedora insônia. Me deixa, dormir.
Mas ele toca com mais força, como um louco surdo. Que não consegue suportar o próprio silêncio existencial. Não conseguia entender que o silêncio do seu coração era uma tortura masoquista para mim. Por que existias somente nas cartas? Por que não existes por completo? Por que não me deixaste partir. Já rasguei as cartas, todas elas numa atitude desesperada de te arrancar de mim, mas porque instistes, mon cher?!

terça-feira, 9 de junho de 2009















Extravasei os meus sentidos,
Narciso
extravasei a minha dor
o meu corpo
e os meus gritos
via-te refletido no meu pranto
e nas minhas carnes
dentro de minhas unhas
Extravasei a razão de ser
do não- beijo
do não-sonho
do meu avesso
do vazio dos seus olhos
no meu não-corpo desprotegido
de pele
mergulhei pronfundo
no rio turvo
do seu retrato vago
de insônia desvelada
de sua crueldade egoísta
extravasei a não-dor no poema
o torpor de seus braços
e a vaguidade boêmia
do teu não ser...
nunca fomos
aquilo que deixamos para traz
aquilo que deixamos de ser...

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Calvário

























Não sei até onde vão as janelas de minhas asas
Até onde te servem de abrigo
Se ao menor sinal de perigo
Não consigo partir
Porque não consigo levá-lo comigo
E a vida que escorre pelas mãos
Em versos atônitos
E gritos
Percorrendo pelos quatro cantos do meu coração
que já não pertence
a lugar nenhum
As vezes sei que posso te levar comigo
As vezes nada sei
Porque as janelas de suas asas
Não me serviram de abrigo...